Na primeira vez em que vim para a Suécia foi em outubro do ano passado para uma entrevista de emprego na Klarna – a maior fintech de todo o continente europeu nos dias atuais. Quando desci do avião confesso que me apaixonei pelo lugar. O clima e a tranquilidade de Estocolmo são realmente uma terapia para os que buscam fugir do dinamismo e hiperatividade das cidades brasileiras. Por aqui a capital possui ares de hotel fazenda para os que estão habituados com São Paulo – um atrativo e tanto para mim. Já na Klarna durante as entrevistas eu entendi que além da marca deixada no currículo eu também teria a oportunidade de aprender muito trabalhando em um ambiente internacional, tanto por estar ao lado de pessoas fantásticas no dia-a-dia tal como por sair da zona de conforto e se atirar em uma experiência completamente nova. Quando recebi enfim uma oferta de trabalho formal não hesitei na hora de assinar, apesar do peso no coração por conta do distanciamento das pessoas queridas eu sabia que eu nunca iria me perdoar se eu abrisse mão de um sonho de longa data como o da vida no exterior.

Em Janeiro me mudei para cá e assim como muitos brasileiros em minha posição senti o peso da distância das pessoas queridas e do escuro do inverno escandinavo, o clima que no início foi um atrativo durante a visita no outono não foi tão agradável no inverno, onde o sol se põe por volta das quatro da tarde e nasce somente em torno das nove da manhã. Apesar da alegria da estar vivendo uma experiência que a maioria das pessoas não tem oportunidade, os primeiros meses de adaptação foram muito difíceis, ainda mais por conta do fato que nós brasileiros somos um dos povos mais receptivos e abertos do mundo, o que faz com que as chances de ir para um país de melhor receptividade seja muito baixa. O estilo de vida mais fechado dos europeus exige de nós que usemos o máximo de simpatia, empatia e paciência para fazer amigos por aqui, mas assim que se torna amigo de um sueco provavelmente será um amigo para toda a vida. Uma coisa que aprendi é que muitas pessoas por aqui mudam-se por conta do trabalho assim como eu, o que faz com que seja muito fácil de se conhecer pessoas de outros cantos do mundo como França, Alemanha, Rússia, Estados Unidos, Austrália, Itália, Brasil e assim por diante, pois elas estão mais abertas. Os suecos no entanto são um pouco mais inacessíveis, pois já possuem seus círculos de amigos e família definidos.

No trabalho uma das grandes lições que tive foi em relação ao pragmatismo sueco, eu sendo quase que um romântico em relação ao trabalho que faço aprendi uma nova abordagem para fazer as coisas, o equilíbrio, ou melhor, o lagom. Por conta de marcas famosas como Volvo, Saab, Scania, Ikea, e Ericson você deve saber que os suecos são muito preocupados com qualidade e experiência do usuário, mas de uma forma bem diferente da qual as referências mundiais em qualidade como japoneses e alemães abordam o problema. Por aqui a palavra da vez é equilíbrio, e o nível de custo a ser adicionado à um projeto por conta da qualidade deve ser exatamente o essencial, e quando eu digo exatamente eu digo que você precisa estudar e aprender exatamente qual exatamente o nível exato de qualidade que o seu projeto precisa para evitar desperdícios. Essa cultura pode ser visualizada em diversas áreas da vida na Suécia, por aqui não existem catedrais extravagantes, as pessoas normalmente vêem com maus olhos qualquer forma de ostentação e a administração pública é extremamente eficiente em garantir os serviços essenciais. Por aqui as terras não são férteis, tampouco existem boas rotas de comércio que passam pela Suécia, estamos literalmente em um pedaço de terra perdido ao norte do planeta onde tudo costumava ser muito difícil anos atrás. A fauna é limitada assim como a flora, fazendo com que a escassez de recursos torna-se os povos escandinavos verdadeiros mestres da administração.

Outra coisa que tenho aprendido melhor por aqui é o uso do relógio, essa magnífica ferramenta. Assim como os suecos administram muito bem seus recursos materiais eles também administram seu tempo e seu esforço da mesma maneira. Por aqui se trabalha menos horas que no Brasil, as férias são mais generosas e a cultura de trabalho é mais voltada para resultados do que para o tempo gasto no escritório. Se por conta de emergências você precisar atender um chamado fora de horário de trabalho você irá receber uma sexta-feira de folga como compensação pelo distúrbio, além do adicional de horas extra. Por aqui a vida pessoal é levada muito a sério e não se tolera gastar mais tempo no trabalho do que aquilo que é exatamente necessário para atingir os objetivos estipulados. Não há muita tolerância para atrasos e falta de pontualidade. Os suecos são também muitíssimo dedicados à suas vidas em família e gostam de dedicar uma boa parte do seu dia para atividades com os filhos, o cônjuge e hobbies. Por aqui eles fazem de tudo para trabalhar para viver ao invés de viver para trabalhar. No Brasil ainda somos ineficientes no gerenciamento do nosso tempo e recursos, o que faz com que o exato oposto se apresente em nossas vidas onde tempo livre é raríssimo.

Além dos aprendizados relacionados à vida profissional e social a vida no exterior tem me ensinado muito sobre a minha pessoa e sobre o nosso país. Vivendo em outra cultura te permite ter uma visão mais precisa do que significa ser brasileiro e no que somos diferente do povo com o qual o nosso está sendo comparado. Muito daquilo que eu acreditava ser natural ao ser humano na verdade não é, e muito daquilo que eu achava ser minha personalidade não tem nada de personalizado, mas sim é uma herança cultural do nosso povo. Além dos ritos culturais, por assim dizer, também aprendi o quanto a língua portuguesa está ligada à minha personalidade e o quanto dela não se é possível mostrar quando estou me comunicando em outro idioma. As palavras, a forma gramatical e as expressões existentes em outras línguas são construções culturais atreladas à um povo específico, portanto assim não é possível ser brasileiro em inglês, tampouco em sueco, de forma plena. Em outros idiomas somos capazes de transmitir com eficiência apenas alguns traços genéricos de nossa personalidade, mas torna-se impossível ou quase de dar mais informações sobre a sua pessoa quando estas estão diretamente associadas à sua cultura e a história do seu povo e expressas unicamente em sua língua nativa, pois todo o contexto que carregamos em nossa comunicação diária precisa ser transmitido à eles.

Apesar das diferenças, por aqui continuarei aprendendo e evoluindo até quando o coração me convidar a voltar para casa, pois apesar do país ser muito menor que o nosso, ainda há muito para explorar e absorver por aqui. Minha intenção a partir de agora é de documentar e também compartilhar ao máximo os meus aprendizados para que isso sirva de inspiração ou orientação para pessoas que visam uma vida no exterior.

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